quarta-feira, 30 de novembro de 2022

Desportos radicais

Poderia ter sido.
Pode ser verdade em parte.
Pode não ser nada, para além, de uma simples metafórica ideia de um glamour que as ilhas paradisíacas ainda nos provocam.
Os portugueses têm procurado cada vez mais a prática de alguns desportos radicais e para isso necessitam de visitar outros locais no estrangeiro, muitas das vezes em zonas que estão nos antípodas da nossa condição geográfica e climática.
Entre 2018 e o presente 2022, que inclui a paragem em tempo de Covid mas que já prevê dados de procura e reservas para o próximo ano, a procura por pela prática de natação apoiada com grandes animais marinhos (baleias, orcas, cachalotes, tubarões e achegãns), cresceu oito vezes comparado com os quatro anos anteriores à amostra do estudo.
Em conversa virtual com John Costa Smith, residente há duas décadas na Papua Nova Guiné, responsável da empresa National Explorer Inc., afirma que os povos da Europa são dos melhores praticantes e que procuram estas actividades. Diz, "Esta actividade que na língua local foi baptizada de UkunemMexe, é já considerada um desporto de sucesso, embora as taxas de acidentes são consideradas das mais agressivas. A taxa de mortalidade e mutilação dos praticantes é considerável mas compensa o risco."

terça-feira, 29 de novembro de 2022

O Guarda Livros de Deus

Quando Deus curou a sua valente constipação com bagaço de bagas que andou a plantar no jardim de Ereias, teve tempo para corrigir os seus gatafunhos de onde iria nascer aquilo a que vulgarmente chamamos de alfabeto.
Deus tinha criado o Homem e a Víbora, faltava-lhe fazer nascer a maçã e aquele projecto (muito conhecido) que viria complicar o mundo. Assim, quando estava de baixa ao serviço da empresa Coisas Importantes Sociedade Unipessoal Lda., completou as figuras a que chamou Letrinhas, depois Sopa de Letras e finalmente só Letras.
Agora o famoso Erro de Deus.
Adivinhem quem teve uma crise de imaginação e entendeu que as letras q p d b teriam a mesma forma mas colocadas com orientação diferente????
Lá está. O Diabo está nos detalhes.
Foi o Guarda Livros da empresa que se virou para Deus e disse: "as contas deste trimestre estão todas fud.... lixadas e temos de poupar em algum lado, Adérito vês (era a alcunha de Deus), vês... estas são todas parecidas, em vez de teres quatro formas diferentes a ir ao forno, vai só uma. Trata lá disso."
A história da Cobrinha Doida, agora chamada de S, fica para quanto contar a ida de Deus a uma sauna de massagens...
Obremos Irmões

domingo, 27 de novembro de 2022

O Adérito, como todos sabem, está nos Cuidados Intensivos do Hospital da sua aldeia faz quase 4 anos.
Uma equipa médica do Hospital da aldeia do lado, sugeriu a aplicação de um medicamento novo, que tinham recebido há uns 7 ou 9 anos e como estava ali por uma nesga a passar do prazo de validade, e que podia produzir melhoras no nosso doente, ajuizadamente foram dar uma mãozinha. Uma mão lava a outra, disseram. 
Nessa noite, a enfermeira Gertrudes, vazou num alguidar o pó para dissolver em Água das Pedras e ministrou no paciente, através daquelas mangueiras que se usam nos Hospitais avançados. 
Eram rigorosamente 4 horas e 28 minutos, o galo Tom Rider, começou numa espécie de galarejo arcaico o que seguramente pertubou o Adérito em coma. Truz. Tungas....
O Adérito ao ouvir o Tom Rider virou-se para o lado e nesse entretanto despertou.
Começou a chamar "oh da guarda oh da guarda" em séries repetidas até que se ouviu no corredor as socas a bater no nalguêdo da enfermeira Gertrudes, "rais'parta o homem, há 4 anos que está em coma e agora é que lhe dá a pressa." 
Resta dizer que, para concordância da obra, Adérito chamou "oh da guarda oh da guarda", porque foi a última imagem que tem na memória daquela fatídica noite em que foi preso por assalto à caixa de esmolas do padre Juselindo, da aldeia do lado.
Aproximou-se da cama a enfermeira com a pimenta subida ao nariz, e diz "oh homem estais com péssimo aspecto, dizei lá o que queres a esta hora".
E assim de voz seca, tomara, faz 4 anos que não bebia nada, diz "o que aconteceu, que dia é hoje, que horas são?".
"Levaste com um semáforo na pinha quando ias de fugida da guarda e do padre da aldeia do lado, que estupor me saíste, com uma igreja aqui tão perto, tinhas logo de ir roubar lá para aquela gente. Estás morto em coma faz 4 anos... E são quase 5 da manhã..."
"Porrrrraaaaa 5 da manhã, por obséquio, aí por volta das 8 acorde-me que quero ver o programa do Goucha."
Uma mina subterrânea
Em laboração há quase 2 décadas
Rocha dura e pouco fragmentária
Existe a ideia que algures no seu interior, numa localização imprecisa está um diamante raro
Mas, é impenetrável, dela não se retira uma reacção ou caminho seguro
Tudo se reveste num enorme mistério. Se a mina é rica, se está a ser perfurada na localização certa, a que profundidade estará a suposta pedra preciosa. Se esta é consentânea com o mito.
Ao longo dos anos a actividade de perfurar a rocha da mina, foi utilizando várias técnicas e formas de conseguir penetrar numa direcção que a evidência demonstra a melhor capacidade de atingir o sucesso.
As leituras que se retira da rocha são inexpressivas. Parece ser uma zona imune e quase nada responsiva ou reactiva à agressividade das inúmeras intervenções.
Por diversas vezes quem custeia é suporta a operação decidiu ou ponderou desistir, mas a possibilidade de atingir o sucesso criou maior ilusão que ultrapassou a racionalidade. O investimento até agora realizado em toda a operação nas suas múltiplas vertentes a ser abandonado é a ruína. Custa muito mais continuar que abandonar. Abandonar é imediatamente a destruição.
Os operários estão velhos, por substituir, sem forças e doentes. Cada vez mais lhes é difícil operar.
A zona tem sido afectada com desmoronamentos internos por fragmentação de rochas e terras sem qualquer tipo de influência no processo de escavação.
A escavadora principal e a máquina perfuradora à qual têm sido aplicadas brocas de enormes e diferentes materiais compósitos, apresente enormes perturbações de funcionamento e desgaste, que leva à consequente inoperacionalidade.
Ao invés, quanto mais tempo passa baseado num processo de trabalho constante sem produzir evidência de sucesso, maior avoluma o sentimento mítico da mina não responsiva que protege o valioso diamante ou o que quer que seja que lá no seu coração em profundidade possa guardar.
A mina, por fim, tem a boca da perfuração localizada na base térrea de uma alta montanha e perfurada no sentido descendente. 
A montanha que guarda este alegado fenómeno de um diamante de características inolvidaveis, está revestida por uma bela vegetação, desde a base com árvores de pequeno e médio porte até ao cume onde se encontra um manto rasteiro de flores... 
Há quase duas décadas que o tesouro tem sido procurado e forças desconhecidas guardam-no com um poder que não é humano.
Contra forças desiguais, não há formas de se vencer. Talvez a montanha tenha colocado uma localização falsa de um diamante em forma de espectro ainda mais ampliado para que conseguisse enganar a real localização da pedra.
Os voluntariosos mineiros, agora exaustos e doentes, passaram a temer forças emanadas pela própria montanha, que não lhe sendo possível perceber contra o quê ou quem têm lutado, sabem que não alcançarão o objectivo de uma boa parte das suas vidas. 
Estão entregues ao medo, à atracção da descoberta e à cada mais crescente sensação de frustração. 
Muitos dos que descem pelo poço perfurado, fazem o trajecto em forma de despedida, outros somente levam os olhos fechados e agarram às pegas de segurança que os conduzem numa descida para o inferno.
A meio da descida, a gaiola que entrega a remessa dos mineiros às profundezas já escavada, começa a perder a força da luminosidade das lâmpadas cada vez mais espaçadas. Por essa altura, alguns dos mais antigos entoam num lente gemido o trautear das músicas que amparavam os homens que da dureza dos trabalhos, ainda encontravam força para acomodar o medo dos mais novos. Uns, outros, pediam ao Altíssimo, outros às suas mães... mas sempre durava um, adeus meu filho, nas últimas palavras.
Chegados ao fim da descida da gaiola, existe ainda um longo caminho a percorrer que embora já estando electrificado, ainda dista alguma distância a vencer. Os mineiros seguem em fila como as formigas o fazem à luz do dia. Os mais antigos são responsáveis pelo encaminhar das suas equipas para cada local das inúmeras ramificações em exploração. Aqui em baixo, o ar quase que se come com a boca aberta.

Ramificações das veias e comunidades construtoras de túneis por formigas 
Sinto-me triste ao ver-te sair,
De esperança e ânsia no teu regresso,
Chegas como se não tivesses voltado,
Estás presente e acumula uma incomodidade pelo teu silêncio.
Finalmente dormes. 
Adormeces sem dar conta que olho para ti e não sei quem és.
Amanhã adivinho ver-te sair,
Recordo como ontem estavas serenamente deitada a dormir e já tinha saudades tuas, porque hoje não estavas.
Morreste, e tenho saudades tuas, daqueles momentos em que ainda não tinhas saído ou acabada de chegar, de onde ainda não te ausentavas do corpo inerte que eu observava.
Morreste e só te conheci por fora.
Quem foste tu...

Os comboios de partida são os que se perdem, os de retorno são apanhados sempre a horas... 

Que belo pensamento. Vou tomar nota
Lápis
Da plantação da árvore
Ao mineiro que trabalhava na mina que grafite

A desconstrução do objecto para recuperar a construção da ideia 
O sultão Xariar aparece numa compilação de histórias e contos que são escritos no século IX e passadas a francês nos inícios de 1700.
Xariar farto das traições das suas mulheres, declarou que todas as que com quem casar depois da noite de núpcias serão assassinadas para que a moral seja assim reposta no sultanato.
Certo dia, casou com uma mulher belíssima mas astuta. Sabendo das sortes das mulheres, nessa noite contou-lhe em segredo uma linda história de amor. Não a terminando e prometendo que na noite seguinte contaria o resto. A história pelo seu dom era interminável e assim aquele lindíssima mulher se salvaria a si e às demais mulheres.
Chamava-se Xerazade e o livro é As Mil e uma noites.
Não por terem sido contadas 1001 noites mas porque o termo representa a eternidade e a salvação 
"Se o universo como um todo e abrangente com tudo o que é corpo celeste conhecido ou por conhecer, é considerado infinito porque o ser humano não conseguiu atingir o limite para lá da vastidão do espaço e tempo, podemos aceitar com base na razão filosófica que o infinito é a face que seduz e justificação para a limitação tecnológica do homem criador. Como  não é possível aceitar o imensamente finito, atiramos para lá da fronteira cognoscível, a possibilidade do universo acabar numa qualquer estrutura semelhante a uma caixa.
O racional empírico que evoluiu de Sócrates e Platão até aos primeiros viajantes cosmonautas, impede o ser humano confuso e perseguido pela dialéctica da existência de Deus, criar uma fórmula sustentável que suporte a ideia da existência de múltiplas e também infinitas caixas que encerram outros universos imensamente imperscrutáveis...
A ideia que torna o ser humano refém da alegoria Deus, não o permite aceitar a possibilidade de um Deus menor ou de outros equiparados em cada um desses universos.
Chegaram aos principais telescópios em solo terrestre uns intrigantes sinais de rádio. Codificados e não inteligíveis pelas máquinas criadas pela tecnologia existente."
Quem deves de fazer orgulhar? 
Aquele que é a tua versão de quando tinhas 8 anos e aquele que serás aos 80 anos. 
São estas duas pessoas que deves fazer sentir orgulho de ti. 
Situações e casos que fazem hábitos.
Determinada pessoa levava o cão a passear todos os dias à mesma hora do fim da madrugada, independentemente do frio, do escuro ou da chuva que caísse, pelo mesmo trajecto até ao sítio onde ao lado de uns pequenos arbustos ficava ali aguardando.
Era o café matinal não tomado que o acordava para o mundo em alvorada.
Cedo ouvia os mesmos sons, todos os dias nascidos, uns escutados outros nitidamente percebidos pela sua ausência.
Estores que abrem e luzes que se acendem.
Luzes acendidas e janelas que se abrem.
Esta pessoa começou a perceber que ele era quem iniciava a vida naquela rua daquele bairro.
Todos os dias estava lá antes das janelas, estores e luzes se acenderem.
Para dar dignidade ao acto, tal qual um porteiro se apresenta de farda composta, começou a acordar meia hora mais cedo para que no mesmo momento repetido todos os dias, se apresentasse devidamente vestido para dar as boas vindas ao dia nascente e aos vizinhos que iniciavam, só agora e por sua influência, mais um dia de vida.
Passou a regressar a casa com o seu fiel companheiro, qual almuaden quixotesco, com o dever cumprido de dar vida à vida daquela gente.
Por influência ou sabedoria animal, o cão passou a ladrar mais, mais vezes, mais alto, mais solene também. Avisava assim os seus iguais da classe a reagirem e transmitir aos donos a boa nova do dia.
Aquela rua daquele bairro acordava todos os dias, tal como sempre fizera desde que existe com a toponímia baptizada. Mas uma coisa é certa, acordados ou não, esta pessoa todos os dias via a vida daquela rua daquele bairro a acordar e dar sinal de vida.
O cão desta pessoa era o primeiro a ladrar e marcar presença.
Um dia esta pessoa morreu e o cão sobrevivo deixou de ladrar ao nascer do dia.
Este cão simplesmente passou a ganir na agonia de ter perdido a sua fiel companhia.
A rua daquele bairro, acorda todos os dias com a mesma sensação de urgência que cada um lhe impõe, mas nunca mais da mesma forma.
Faltava os olhos que brilhavam ao ver o dia a acordar para aqueles vizinhos.
Quando a saudade era grande, aquele homem de bainhas por descer, timidamente mostrava indiferença ao percorrer os corredores luminosos dos centros comerciais da sua cidade.
Mal disfarçado, simulava interesse ao entrar em lojas que compunham outras necessidades de nenhuma urgência e vagueava sem tempo contado, até que se dirigia a uma das perfumarias, com o cuidado de não repetir a visita.
Sentia a indecência de abusar do tempo das funcionárias para proveito próprio e a elas desnecessário. 
De qualquer forma, balbuciava o nome do perfume que alegadamente alguém lhe teria sugerido comprar para oferecer à sua esposa. Idílic for Women.
Assim se chamava aquela essência de remorsos, recordações e memórias. 
Umas vezes a timidez o traía ao dizer o nome, outras era mesmo o inglês arcaico que lhe torcia a voz.
O caso só ficou registado porque na visita passada, este homem, foi desmascarado.
A jovem senhora que o atendia, quase fardada de hospedeira sofisticada das mais conceituadas companhias de aviação, deduziu por intuição a presença de um meliante.
Deu uma tira cartonada impregnada do perfume a cheirar, depois torceu o olhar, reforçou a dose pulverizada e voltou a oferecer ao homem que está a atender para que este comprove a luxúria desta fragrância.
Momentaneamente tocaram olhares. Ela levantou o queixo. Ele se pudesse morria.
O corpo dele embriagado não estava preparado para morrer.
Ela não tinha o dedo acusador em riste.
Tem saudades, perguntou ela.
As lágrimas começam a descer com a urgência de um rio que corre para a foz.
Desculpe. Desculpe. Naturalmente balbuciado. 
A sua esposa... 
Era o perfume da minha senhora, morreu vai fazer um ano, era o perfume dela de sempre e o meu amor. Nunca lhe conheci outro perfume e coitadita, as roupas já estão a perder o cheiro... 
Compreendo. 
A funcionária baixou-se e abriu uma das portinholas daquela secção da estante e tirou um pequena caixa branca. 
Tocou-lhe numa mão e na outra depositou a amostra daquele perfume. 
Quando faltar passe por aqui, venha ter comigo, não se preocupe que não necessita de dizer nada. Pode ser um dia alguém também sinta a minha falta como o senhor sente da sua senhora. 
E as lágrimas que ele antes deixava cair, eram as que faltavam nascer na vida daquela mulher. 
Em casa, ao lado da vela acessa que velava a fotografia, passou a ficar aquele frasquinho de perfume. 

 Caçadores de personagens aprisionados os livros.

Para chegar aos 50 anos foram necessários 2 pais.
Com eles e para trás fica uma linhagem ascendente de 12 gerações até aos Nonos Bisavós com inevitáveis 4.094 ancestrais directos que terão iniciado a descendência à volta de 400 a 500 anos atrás.
Aos 4.094 será necessário juntar as sub laterais e inferiores posições familiares. Passamos a olhar para uma árvore genealógica de centenas de milhares de pessoas... 
"Comprei poucos sapatos na vida, e dos poucos que tive dei-lhes mais uso, a esses pobres coitados, que alguma vez imaginariam sofrer.
Os pés que carregam o corpo em passos arrastados; as pernas mal articuladas cansadas da vida que calcorrearam todas as pedras da calçada de qualquer rua desta cidade, e esse espírito sofrido mergulhado em constante desassossego e inquietação. 
Não esquecerei aquele dia em que tive os meus primeiros sapatos de homem. Agarrei-me a eles e pensei - não haverá passo que me atrase o destino. 
E assim premeditadamente teria decidido. 
Passados uns anos esses sapatos já velhos e gastos de sola esburacada até à crosta das feridas dos pés de meias rotas, foram colocados em cima da roupa com que o cangalheiro me iria vestir para descer à terra. Levava a roupa de sair mas os sapatos, esses pobres coitados que tinham percorrido todas as ruelas, mesmo aquelas mais escondidas, eram os de todos os dias. 
Morri amargurado mas satisfeito por ter visto tudo o que poderia ter observado. Em paz de espírito, finalmente, lembro-me de ter percebido um levantar a cabeça e no escuro da minha altura e tamanho, sentir que lá ao fundo estavam os meus fiéis companheiros de comprometidas caminhadas. Aquele sapato esquerdo ainda tinha o atacador, o outro, aquele do direito pé que sempre foi torto já o tinha perdido..."
Nasceu o sol,
Finalmente o inverno nórdico foi vencido e já passou para lá das costas das montanhas.
O ser que hiberna na cave dessa casa, saberá do efeito que agora se descobre pelo restolhar que os primeiros animais fazem ao circundar as imediações do alpendre.
Inundação de vida.
Para que não seja engolido pelas águas de luz, hoje só destrancará a portinhola do alçapão.
Trac trac, duas voltas... 
Amanhã abre o fecho e levanta para espreitar. 
Se as frinchas que deixaram perpassar o frio medonho do inverno forem suficientemente honestas, serão as mesmas que se apresentam rasgadas pela luz.
É hora de subir.
Devagar, cuidado, não te deixes ser inundado pela força da água da vida, escuta o matracar pelos seus sucessivos pensamentos.
Lá fora estará cego, demorará algum tempo a adaptar-se ao desfazer das trevas...
E agora,
Antes estava fechado na companhia do escuro,
Agora está sozinho na ausência da vida que ainda necessita de força para desfazer a neve caída,
O tempo do inverno dilata,
O tempo passa a ser um movimento unificado em dias escuros e noites de ausência. Sucessivos dias minguados e noites longas, até que o círculo escuro se fecha.
Escurece, anoitece, o tempo dilata.
Envelhecer apenas um dia e uma noite na consciência de que a dimensão está deturpada. Lá fora o tempo corre parado mas o contador segue a cadência das horas e dias ignorados. 
Inundação de vida.
Uma ameaça. 
Aqui o dia findo e a longa noite sobrevivida é equivalente aos meses lá fora passados no adormecimento enterrado na neve caída.
Cautela.
Não te deixes enganar com a inundação da vida, ainda te afogas nesse inconveniente desejo de viver.
Bom dia, bom dia luz, bom dia que aquece.
Quando a neve desfeita der lugar a água cristalina e a água secar e descobrir o musgo nas madeiras do alpendre, virá cá fora dar a saudação ao mundo,
Quando regressar e começar a limpeza da lúgubre sala, sentirá o temor de iniciar novo ciclo de vida.
A inundação da vida será uma enxurrada de sentimentos quando sentir a força para se observar no velho quadrado de espelho que não teve direito a moldura.
Depois de sofrer a inundação da vida, perguntará, se só passou um dia e uma longa noite, porque envelheci estes anos todos cravados na aspereza das mãos e da face.
Chovia torrencialmente.
A história é curta.
Olhava pela janela e contava as horas para a sua libertação.
Daquele momento em diante faltariam 3 horas e 33 minutos para completar o ciclo da purificação.
1000 dias de reclusão da alma. Sem álcool e sem sexo, perfazendo as etapas da renúncia e limpeza das adições.
O vento soprava obliquamente empurrando a enchurrada das águas pelos passeios que ladeavam a estrada local.
Aos 33 minutos chegou a mensagem.
Considere-se livre.
Nesse momento abriu a porta do quarto e vestiu-se a rigor na comunhão com o destino.
Apagou as luzes.
Abriu a porta e no meio da estrada começou a correr em tronco nu recebendo na face a contra força gélida do temporal.
Num grito de alegria ouviu-se dizer "ahhh como é bom ouvir o barulho das havaianas a bater e shlap shlapp shlapp" e pensou, até parece que estou a procriar...
Matou-se. É mais bruto que o suicídio. 
Tinha de ser rápido; o suicídio implicava preparar com antecedência o festim da morte. Isso nunca lhe ocorrera.
Naquela tarde de Dezembro estava a janela a ver passar o nada, o nada de nada se passar. 
Pegou no cadeado instantaneamente e saiu de casa. Atravessou a estrada e no outro lado pendurou o cadeado no primeiro travessão do gradeamento da ponte.
Atirou-se ao rio de cabeça.
Matou-se; mas consigo levou a chave do cadeado.
"homens e mulheres dentro dos carros a olhar perdidos para o barulho incessante do mar que banha a areia prateada,
Nenhum dos carros tem dois ocupantes,
Aquele ali tem, um casal, a coisa está feia, discutem.
A privacidade que o mar dá à solidão é a mesma que esconde os atritos privados fora das quatro paredes e dos ouvidos enganados.
Nesta altura do ano ainda se apanha marisco de concha fugidia. O mesmo mariscador que ontem evitava os banhistas agora evita o mesmo frio e o vento que continuou a não ser favorável.
A safra é minguante,
Pode ser que logo haja petisco. "
"Depois da noite de tempestade, onde os negros cintilam sobre os reflexos prateados da lua escondida,
Os homens decidem voltar ao mar,
Vão buscar os corpos caídos no imenso fundo lodacento.
Neste entretanto, na vigia do farol, é travada a luz na volta que se direcciona à vastidão do mar. Apontam a luz fixa, já não é necessário que circule.
O mal já foi feito, 
Os homens que já revolvem as redes destruídas, entoam os sons sofridos da morte dos seus camaradas,
São tons de sons murmurados de quem já perdeu alguém nesse abismo, ou que na fímbria de uma luz conseguiu vencer daquela vez a morte e passou a ficar em dívida.
Todos esses sabem que o mar não deixa que as dívidas sejam renovadas, 
De onde saiu o barco e que pela última vez deslaçou aquelas nodosas cordas, vozes carpideiras já choram os maridos, filhos, netos e homens de outras, mas que solidariamente sentem a sua dor.
Nas primeiras horas de noite que vai sendo empurrada, vários zarparam cumprindo o ritual do velório que os pescadores fazem, quando sabem que os seus lá ficaram.
Vamos lá.
Vamos lá buscá-los.
Não. Vamos lá chorar. Vamos lá pedir que o mar os devolva e os possamos recolher.
Quem diaria que com o nascer do sol, essa manhã fosse de mar chão... "
A vida é curta, segundo a visão da máphia. De qualquer forma são organizações que providenciam algumas das virtudes dos homens. 
A paciência (um dia és apanhado distraído), a bondade (sim, eu não te matarei, tu é que pedirás), a proximidade com a natureza (quando alegadamente tiveste um acidente naquela falésia com o mar lá em baixo), a educação (muito obrigado por só me ter cortado os dedos e deixar os pulsos intactos), a distribuição de dinheiro pelos necessitados (aqui está o dinheiro que pode usar para comprar um barquinho novo), o aproveitamento de materiais na construção de edifícios (onde costumam ser emparedados corpos de gente que sabe demasiado)... Sem esquecer a virtude do silêncio. Eu ainda sei o que fizeste no verão passado. 

"Vida suspensa por morte do próprio e a seguinte teorização da memória, continuada por terceiros até não ficar mais que uma menção ou inscrição lapidar. 
Vida interrompida ou a brutalidade do acto mecânico de matar ou morrer, a fracção de tempo, a morte imediata ou o direito à memória de dor."

Meretíssimo

《A nobreza das palavras afronta e confronta directamente com a vacuidade do acto. 
O juiz ao entrar na sala de audiências do tribunal de primeira instância ordenou com um tom de enorme severidade "Levante-se o réu."
O homem sentado à sua frente, precariamente instalado num corrido banco de madeira, não reagiu à ordem do juiz. Simplesmente não se mexeu continuando a olhar para os atacadores dos seus miseráveis sapatos. 
"Levante-se o réu, rápido que não tenho tempo a perder"
E nada.
"Oiça lá você está a gozar com o tribunal?"
E nada.
Sua eminência do alto do generosamente estofado cadeirão lança uma estridente martelada na mesa; martelo este usado para encerrar o veredicto das audiências e demais actos de julgar o culpado ou o inocente, que ecoou pela sala em peso proporcional do susto e do medo afligido nos demais presentes. 
Solitário homem sem advogado por imposição do próprio que prescindiu de outra cabeça que não a sua para legitimar a argumentária a contestar, levantou os olhos cavados dentro das órbitas e riu-se. Gargalhou ao mesmo tempo que descruzava e voltava a cruzar as pernas agora em sentido contrário. 
Murmúrio. Murmúrios na sala.
"Ordem na sala! Ordem senão mando evacuar a sala" e olhando em direcção do homem "Será multado por desobediência ao tribunal e à figura do juiz, aqui seu máximo e primeiro representante"
Levando a sua mão direita à cabeça, afagando a alta testa como que limpando o suor inexistente; aquele esquálido rosto aparentava uma infindável paciência de quem teria já passado o tempo em que o tempo por si só fosse um pretexto para uma urgência deixada de existir há muito tempo atrás. Solenemente "O meritíssimo juiz entrou na sala e sem dar a devida saudação aos presentes berrou para que o réu se levantasse. Eu como não me considero réu e muito menos culpado do que quer que seja fiz-lhe o favor de respeitar a sua ordem.  Em consciência não me levanto a não ser que o meritíssimo juiz tenha a dignidade de descer desse cadeirão e aproximar-se para me cumprimentar.  Aí sim por humilde educação granjeada ao compasso do tempo passado farei o obséquio de o saudar calorosamente".
Irritado e não menos surpreso o juiz volta a bater com o martelo no verniz lustroso do tampo da mesa "Está encerrada a audiência por desobediência do réu para com o tribunal. Seja detido o réu e levado para os calabouços "
Voltando a descruzar as pernas, agora para erguer o cadavérico corpo "Como é que o meretíssimo juiz declara encerrada a audiência de algo que não chegou a iniciar?"
De imediato o juiz reclama "Senhores agentes da autoridade prendam-me este homem que não suporto mais desaforos."
De pé o homem responde "Eu sou Adérito e a plateia quando entrei já estava preenchida. Aqui me deixei ficar até que alguém me pedisse para desocupar o lugar. Sabe meretíssimo juiz é que eu só cá vim ver o espectáculo que é julgar os outros quando se tem a barriga cheia. O réu ainda não chegou e o baile está armado tal qual se dizia na minha terra."
Lívido de cor e forças "O senhor não é o réu?" remata o juiz.
Com sorriso mordaz os olhos amarelecidos que pareciam ganhar alma rejuvenescida neste homem, agora de pé "Serei se o meretíssimo juiz conseguir ser competente o suficiente para provar que eu sou culpado do que quer que seja. Até lá só sou Adérito. Meretíssimo, ao seu dispor"》
Rui Santos  (27.11.17)

sábado, 26 de novembro de 2022

- Oh avózinha és tão estranha!
- Já o teu avô o dizia,
- Esses olhos que tens,
- É verdade, o teu avô até se borrava todo quando lhe abria os olhos
- E o nariz...
- Servia bem, para cheirar a esturro quando o teu avô começava com as desculpas dele, 
- E as tuas orelhas enormes?
- Quando lá vinha ao longe já lhe ouvia os passos tortos.
- Oh avózinha e essas mãos tão fortes e rudes que tens, como foi que assim ficaram?
- Minha rica netinha, muito rolo da massa, muito rolo da massa...
- Avó, só mais uma pergunta. A tua boca...
- Cala-te, nem digas nada... O teu avô dizia que fazia milagres
- Ai avó, o meu Adérito, diz o mesmo...
- Não te poupes filha, não te poupes 
A resina e o alcatrão, foram elementos cruciais e peças chave na capacidade de protegerem e calaftarem as madeiras do navios com que foram descobrir mundo e retornar com riquezas.
Nos dias de hoje se a resina perdeu a importância de outrora, o alcatrão conseguiu fazer derivar a sua importância para a construção de estradas.
De qualquer forma, se não houvesse uma matéria tão viscosa que não fosse eficaz na impermeabilização dos navios, as empresas das navegações por rotas desconhecidas teriam de ser suficientemente atrasadas até que a ciência resolvesse essa questão. 

19 - sobre as ideias

A calcificação das ideias.

18 - a bagagem das memórias

A bagagem, de mão ou malões, um saco cheio de coisa nenhuma que compõe a vida, ou uma imensidão de memórias, vagas ou difusas, presentes ou pressentidas.
Cada um carrega a sua bagagem. 

17 - ética

A diferença entre ética (universal) e moral (localizada nos costumes e hábitos do país ou da cultura).
Poderá o espirito agregador de uma comunidade local sobreviver ao máximo comum da humanidade?

16 - guardador de sonhos

Pensava eu que ser guardador de sonhos tinha a ver com a domesticação das nuvens, onde os pássaros, esses rebeldes, persistem rasgar os densos véus soprados na frente do vento.
Tresmalhados dias que descobrem e denunciam aquelas nuvens disfarçadas, mas que no fundo não passam de negros e sombrios pesadelos branqueados.
Esses malévolos, 
Que façam descer os querubins.

15 - memórias

As janelas servem para olhar o mundo lá fora, 
iluminando o que se passa cá dentro de portas. 
E quando as cadeiras ficam vazias, 
passam a ser ocupadas pelas memórias...

14 - para onde se aponta

Mesmo girando a bússola, a agulha aponta sempre na mesma direcção.
Muitas vezes, por mais voltas que dês, a solução escapa sempre por entre os dedos. 

13 - do tempo

E se pudessem morrer mais velhos, bastando para tal, congeminar uma ardilosa teia intrincada de negócios com o relógio do tempo. 
Ele faria das horas um espaço mais curto, roubando minutos sem que se notasse, 
o relógio do tempo negociava com o sol a intensidade da luz, 
assim na terra o tempo e os astros de outras paragens seriam coniventes numa engrenagem de envelhecimento não percepcionado pelos humanos.
Cada minuto teria menos segundos, cada hora teria minutos mais encolhidos, cada dia passaria de forma regular mais depressa com a ilusão da ampulheta mudar a sua rotação na sensação da passagem do tempo correcto.
O relógio inicial ajustava o Sol, o Sol ajustaria o sono e a vida dos humanos pela luz e sua ausência, os humanos acertariam os seus relógios numa coordenação conspirativa desconhecida com a entidade redutora do tempo.
O tempo passaria a ser medido na constante perca de segundos com repercussões directas e cumulativas nas unidades acima resultante da dimensão da pirâmide, ou seja dos minutos, horas, dias, meses e por camadas seguintes...
As pessoas envelheceriam mais devagar contando uma enganosa aritmética de datas.
Se fosse aumentado o ritmo do ponteiro dos segundos do relógio em três tempos, escondidos no que chega ao fim do ciclo e muda de minuto, o que inicia a sequência do minuto e acrescenta um passo e por meio, distraidamente, galgava o seu meio em dois andados, no fim do minuto perfazia cinquenta e sete segundos certos, onde no mostrador mudava imediatamente de minuto. 
Passada uma hora, os sessenta minutos teriam menos cento e oitenta segundos. No final do dia, e nesta cadência de roubar segundos ao envelhecimento, o relógio do tempo teria poupado quatro mil trezentos e vinte segundos, setenta e dois minutos certos, ou uma hora e doze minutos, num dia de vinte e quatro horas. 
Quem poderia desconfiar?
O relógio do tempo é soberano. Porquê duvidar? Com que base questionar...
Extrapolando as contas ao ano, dos vinte e seis mil duzentos e oitenta minutos anulados, quatrocentos e trinta e oito horas, aproximadamente dezoito dias e quinze minutos, seriam este o ganho de tempo no célere ritmo biológico dos humanos. 
Uma pessoa que viva oitenta anos, quando morrer sentirá o peso de trinta e cinco mil e quarenta minutos reduzido ao cadastro desde a data de nascimento. Perfazendo mil quatrocentos e sessenta dias. Em ciclos anuais a pura matemática, coloca o idoso com setenta e seis anos certos. Menos quatro anos.
Para que serve esta conta?
Como poderemos dizer ao corpo de oitenta anos que foi roubado todos os minutos da vida em três segundos, e que os setenta e seis anos de velas contadas ininterruptamente, são afinal oitenta?
Quão ardilosa a engrenagem da mentira pode ser mantida aos olhos de toda a vigência da humanidade?
Se o ser humano vai ao espaço numa longínqua viagem pelo cosmos, esse destemido ser da portinhola da vigia da nave espacial, sim porque viaja acima do céu das nuvens que nos tapam os olhos do que está para lá, não conseguirá ver a máquina do relógio do tempo, e afinando a visão por entre as poeiras cósmicas num olhar abstrato mas semicerrado e discernir, ali está a congeminação inicial, de onde por hercúleas artes decide navegar o seu casulo mecânico, trazendo-o a terra firme e numa pose de herói  denunciar a todos - Atentai, Atentai seres cegos da verdade, estamos a ser enganados pelo indecente ponteiro dos segundos com a conivência do dos minutos e das horas. Coitada, esta que, se calhar também está a ser enganada. E ali bramir uma nova ordem da contagem do tempo. 
Quem decidiu que aquela medida rudimentar do tempo, calculada pouco depois dos humanos rabiscarem traços difusos aos nossos olhos em cavernas iluminadas por archotes de luz imprecisa, poderia servir de base à ciência da rotação do planeta sobre o Sol? 
Isto sem esquecer as diatribes causadas pela ignorância da lei que colocava o planeta Terra no centro do desconhecido e que o Sol andaria a reboque das mentes iluminadas da altura, para glorificar reis terrenos e deuses etéreos.
Alguém decidiu medir algo infinitamente pequeno e não palpável, como coisa de lei suprema e superior a todos os dados do imberbe conhecimento. Depois vem a figura de Deus. Temos o tempo parcelado em segmentos de segundos, minutos, horas, dias, meses e anos, cujas contas não batendo certas, se inclui o resto a que chamaram de ano bissexto, para saldar as contas à unidade. 
E Deus. 
Comandante de todas as coisas, vindas, ausentes, sobrevindas e vindouras, mortas e destruídas, existentes e por morrer. 
Deus, essa qualquer coisa, não desfazendo da retórica da metáfora, como a ideia do superior não perceptível e tangível para qualquer momento da história da existência do ser humano. 
Dizemos assim. Deus vê tudo, Deus sabe tudo, Deus pode tudo, Deus comanda e decide tudo, Deus está em todo o lado. 
Tal como o tempo que não o vemos, não se nos apresentando como uma uma nuvem difusa que se dissipa e nos escorre por entre os dedos...
Ali está Deus. Ali está o tempo.   

12 - paisagens da pastorícia

O pastor que se perdeu, 
as ovelhas que o seguiam sem questionar, 
o cão que boicotou o resto da viagem até que o pastor descobrisse o local onde se tinha perdido. 
As suas ovelhas que nunca se aperceberam do engano,
o pastor que perdeu a linha do horizonte,
o cão que seguia o habitual trajecto da pastorícia,
as ovelhas que seguiam em função da sua fome.
A demência.

11 - dos dogmas

A complexidade de um ateu científico. 
A fé que divide as pessoas.
Quão crente pode ser um não religioso?
Quão descrente pode ser um seguidor de uma confissão?
Poderá um ateu se radicalizar?
O que é a fé? Seguir uma verdade assumida e induzida por outros e pela tradição?
Um ateu pode ser convocado?

10 - da "animalidade" humana

O conceito da moral e dos princípios são destronados pelo individualismo e centralidade da vida no singular da pessoa. O primado da supremacia do Eu, sobre o Nós, Vós e Eles.
Essa pessoa que destrona a relação solitária do individual e abraça em comunhão de partilha, o seu círculo restrito familiar e de amizades, muitas vezes de conveniência, projecta o seu egoísmo, expandindo-se numa espécie de protecção dos seus. 
Repercute neles a sua influência e continuidade do seu ego. São os individuais e instintos básicos da sua natureza.
Daqui nascerá, por hierarquias, os Alfas e suas linhagens.

9 - dos perigos do degelo

A cristalinidade e pureza mítica da água tornada glaciar há milhões de anos. 
Quem garante que aquela água agora líquida por força das nefastas alterações climáticas, não estaria então, tão inquinada como a que agora se banha em rios e traços fluviais de cheiro e sabor podre.
Mais. Que segredos de milhares anos pode esconder um pedaço de gelo que descongele e traga à luz do presente organismos que possam colocar em causa a humanidade.

8 - a justiça do tempo

Para as boas obras e para as obras más, o tempo sempre presta justiça e oferece o seu veredito.

sexta-feira, 25 de novembro de 2022

7 - de dento de um carro estacionado

...homens e mulheres dentro dos carros a olhar perdidos para o barulho incessante do mar que banha a areia prateada,
Nenhum dos carros tem dois ocupantes,
Aquele ali tem, um casal, a coisa está feia, discutem.
A privacidade que o mar dá à solidão é a mesma que esconde os atritos privados fora das quatro paredes e dos ouvidos enganados.
Nesta altura do ano ainda se apanha marisco de concha fugidia. O mesmo mariscador que ontem evitava os banhistas agora evita o mesmo frio e o vento que continuou a não ser favorável.
A safra é minguante,
Pode ser que logo haja petisco.

6 - da leitura de Mar Morto de Jorge Amado

Pequena ideia de mar e seus homens.
A inspiração vem da leitura de Mar Morto de Jorge Amado.
Primeira edição de 1936.
Esta data faz parte do meu imaginário Saramaguiano, que corresponde à chegada no vapor Highland Brigade de Ricardo Reis, convocado por telegrama anunciando a morte de Fernando Pessoa.
O futuro uniu dois homens com mar por meio. Jorge Amado, um eterno e adiado Nobel da Literatura, a José Saramago. 

Depois da noite de tempestade, onde os negros cintilam sobre os reflexos prateados da lua escondida,
Os homens decidem voltar ao mar,
Vão buscar os corpos caídos no imenso fundo lodacento.
Neste entretanto, na vigia do farol, é travada a luz na volta que se direcciona à vastidão do mar. Apontam a luz fixa, já não é necessário que circule.
O mal já foi feito, 
Os homens que já revolvem as redes destruídas, entoam os sons sofridos da morte dos seus camaradas,
São tons de sons murmurados de quem já perdeu alguém nesse abismo, ou que na fímbria de uma luz conseguiu vencer daquela vez a morte e passou a ficar em dívida.
Todos esses sabem que o mar não deixa que as dívidas sejam renovadas, 
De onde saiu o barco e que pela última vez deslaçou aquelas nodosas cordas, vozes carpideiras já choram os maridos, filhos, netos e homens de outras, mas que solidariamente sentem a sua dor.
Nas primeiras horas de noite que vai sendo empurrada, vários zarparam cumprindo o ritual do velório que os pescadores fazem, quando sabem que os seus lá ficaram.
Vamos lá.
Vamos lá buscá-los.
Não. Vamos lá chorar. Vamos lá pedir que o mar os devolva e os possamos recolher.
Quem diria que com o nascer do sol, essa manhã fosse de mar chão...

quarta-feira, 23 de novembro de 2022

5 - uma espécie de obsolescência

O ser humano conseguiu neste século, acelerar e transformar o seu comodismo (pessoal, social e de espécie) numa obsolescência assumida.
Neste entretanto, brinca com assuntos importantes para disfarçar a incomodidade do peso da consciência que atravessa a cúpula dos decisores governamentais e das oligarquias que se confundem com os fundos planetários especialistas em gerar especulações financeiras e de capitais transnacionais. Acha importante fazer de conta que se preocupa com assuntos decisivos, universais e beneméritos. O impacto das consequências da industrialização nos ténues e precários equilíbrios da natureza é um dos maiores paradoxos. Produzir riqueza com o custo da destruição do planeta. Declarar as intenções de paz em cima da investigação e produção de equipamentos sofisticados de guerra. Cadenciar a produção de medicamentos universais para contribuir com a erradicação de doenças e vulnerabilidades das populações. Doenças com possibilidade de serem erradicadas são impugnadas pelas acções de sabotagem na atribuição de investimentos que podem desenvolver capacidades médicas de sucesso, mas de enorme desvantagem financeira de retorno dos lucros multimilionários que alimentam fundos sediados em paraísos fiscais. 
Somos a população de 8 biliões de pessoas, de onde uma ínfima parte delas pode decidir consumir em desequilíbrio, num sistema de crédito futuro e geracional, recursos não passíveis de serem repostos a tempo de evitar um longo e metafórico inverno no planeta Terra, ao invés de suster ou estancar com travão as medidas que estão cientificamente identificadas com poder de desenvolver impactos mundiais não reversíveis. 
A solução é alunar ou aterrar em Marte. 
É possível acelerar o processo de discussão filosófica de temas tão críticos para a humanidade como o ser humano da era da industrialização e da robotização poder decidir a velocidade com que vai ser extinguido.
Falta a obsolescência.
Alguém inventou que a substituição de bens e equipamentos deve acontecer através de uma moda estética suportada pela força do marketing. O tempo médio da vida de um equipamento é gerado não pelo seu racional rentável mas pelo anúncio das suas evoluções que induzem a novas necessidades.
Caminhamos alegremente atrás de uma flauta...

4 - da nossa revolução

Revolução dos cravos vermelhos que não se cumprindo na utopia,
vestiu-se de rosas encarnadas para enganar as vozes dos derrotistas dos sonhos por alguns abandonados. 

3 - paradigma de país

Vivemos num país apertados sob um constante eco de um rumor.

2 - a produção da fórmula da pureza

A natureza manifesta condições para que a planta e depois o pequeno arbusto, crie robustez suficiente para engrossar o frágil pé em tronco.
Do tronco, ramificará frágeis ramos terminados em folhas de Oliveira.
Por esta altura, é importante que a terra faça o seu trabalho e empreste da sua força. Que essa mesma terra convoque do tempo o seu melhor e amena temperamento. Nem muita chuva que alague e apodreça o pé, nem muito vento que a desterra, pouco calor e sol que não queime, nenhuma geada. De tudo, o quão pouco que seja necessário.
Da Oliveira nascerá a sombra e depois a azeitona,
desta virá a força do homem, 
só depois a ciência.
A ciência colocará à mesa a azeitona retalhada e o azeite para embeber o pão e a comida no prato.
Que seja puro este ouro que se bebe no pão,
E que da extracção a ciência e a arte do homem, não se esqueça de recolher o guardar o bagaço sobrante. Dessa massa, à terra há de voltar.

terça-feira, 22 de novembro de 2022