Preciso de alguém de Segunda a Quinta e de Janeiro a Maio, também de Outubro a Dezembro. No resto eu dou um jeito e cá me desenrasco.
Se puder aparecer entre o entardecer até anoitecer e depois que possa ficar até amanhecer, seria muito útil para mim. Gosto daquelas conversas de luz apagada que costumo fazer comigo, mas com outra pessoa deve ser fantástico.
O problema é que amanheço sempre mergulhado no tédio de acordar com as minhas, mesmas e repetidas, palavras, a que já lhes chamo de noites mentirosas.
Deixei de moer o café de madrugada. Passei a ter receio de incomodar os vizinhos com aquele barulho frenético da trituradora. Nada mais irritante pode ser, alguém acordar com o som da moagem do grão sem saborear o seu cheiro em odor de partículas que convidam a elevar o nariz e procurar, farejar que nem um humano aspirante a canino.
Assim tiro três colheres de café, moído de antevéspera, sem agressão aos alheios, e coloco na cafeteira queimada, que sobrevive em cima do fogão.
São três da manhã; da cama fria para o roupão que lhe sinto a gola áspera, sinónimo de tecido grosseiro, vejo nascer pelo som borbulhado e cheiro a quente, aquele café rotineiro das madrugadas maceradas em cima de uma vigília desnecessária.
Abraço a chávena com as duas mãos, procurando quais dos dedos consegue encaixar na pega e sinto o quente fluir pelas nervuras da carne.
Aqueço. Retempero. Sopro para cima da chávena, só para diluir a fumarola que o frio da cozinha faz descobrir pelo choque da temperatura. Gosto de destruir aquela chaminé de vapor com os meus sopros fulminantes. Não será por isso que o café perde o romantismo que nos gostam de vender nos anúncios da televisão.
Mas, é porque.
A cadeira à minha frente define o lugar vago e decido, preciso alguém de Segunda a Quinta, pelo menos, o início da semana é sempre mais dolorosa de passar. À Sexta, é inevitável sentir o frenesim das caras pálidas que parecem ressuscitar da cadência da semana. Até o intragável homem do talho parece outro, sinónimo de melhorado negócio e despacho das carnes sobradas de venda parca do início da semana. Pensa ele que me engana, mas conheço-lhe a manha.
São quatro menos um quarto da manhã e também sei que os meses de Inverno são duros de passar sozinho. Se calhar peço também companhia para essa altura do ano.
Bem, assim pensando melhor, isto parece fácil, nem entendo como cheguei aqui, se a solução é só pedir.
Se calhar não sei pedir.
É verdade, tu não sabes pedir.
A chávena está fria. A zurrapa deixa boiar algumas borras perdidas no remexer vagaroso do café.
Morreu a espuma primeira, e agora vai pia abaixo.
São quatro da manhã e regresso à cama. Aproveito para descansar da noite que não consegui dormir.
Está quase a amanhecer e invejo os que desligam o alarme do despertador e se aconchegam em carnes quentes. Essa gente que resmunga e mal sabe o que é o sinónimo de cama fria, revolta-me esse desperdício de resmunguice. Deviam ser proibidos de sair de casa amuados, ao mesmo tempo que me apetece insultar aqueles que são felizes às seis e cinquenta e cinco da manhã, quando ligam os seus rádios dos carros aquecidos pelo ar-condicionado e que são retirados das suas garagens a tempo de ouvir as notícias de um mundo perdido.
Ahh bom. Boas notícias me trazes. Afinal não sou eu que estou perdido, é o mundo.
Muito te enganas, mal sabes que um monte de perdidos fazem o mundo desesperar que alguém lhe dê um sentido à sua improbabilidade de ser neste ponto do céu que se vê estrelado.
Aquilo ali é o quê?
Aquilo é um mundo perdido...
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